Existem coisas que não esquecemos e que ficam meio que impregnadas em nosso sistema sensorial. As vezes um aroma, uma música, uma imagem, um lugar, enfim, algo que nos remete a um tempo ou sentimento passado.
Isto posto, ainda garoto, lembro-me muito bem de uma pintura a óleo de talvez um metro e quarenta por um metro, na sala de meu avô, que me despertava enorme curiosidade. Além do grande formato, das cores e da forma abstrata exposta na tela, a obra aguçava-me a curiosidade por sua textura, que saltava a superfície e vez por outra, eu subia no sofá e teimava em passar os dedos sobre a crosta de tinta a óleo sobreposta e escutava sempre um sonoro: “Marceeelooo! Tira a mão daí – já te pedí pra não pôr a mão no quadro”. O quadro em questão, era uma tela da série “Carretéis” de autoria de Iberê Camargo (primeira foto abaixo) , um dos maiores nomes da arte no século vinte.

Esta obra pertencia (pertencia, pois, a família teve que anos mais tarde, leiloá-la por motivos financeiros) a meu avô e foi adquirida de forma curiosa, estabelecendo-se a mais leal e digna relação entre artista e comprador. Por volta de 1969, em visita a trabalho ao Rio Grande do Sul, meu avô em companhia de minha avó, foram levados por um amigo, ao ateliê de Iberê Camargo, então, ainda em Porto Alegre. No ateliê, meu avô interessou-se por um de seus quadros, mas o valor cobrado naquela ocasião, estava fora de suas possibilidades. Meu avô então, foi embora com pesar, mas com o sentimento que tinha deixado para trás, algo que lhe tinha encantado. Certamente, o irrefutável desejo de meu avô, não passaria despercebido por Iberê.
Meses mais tarde, já no Rio, em sua casa, meu avô receberia um grande engradado de madeira embrulhado em papel, cujo o remetente era….exatamente! Iberê enviara a tela da série “Carretéis”, a mesma que meu avô naquela ocasião, não pôde adquirir. A série “Carretéis”, foi tema percorrido por Iberê a partir do fim dos anos 50, que mesclava o abstracionismo e símbolos figurativos que faziam alusão a carretéis, brinquedo de sua infância em sua cidade natal, Restinga Seca, cidade industrial no interior do Rio Grande do Sul.

Desembrulhado o volume, junto ao quadro, havia um bilhete de Iberê a meu avô, que dizia o seguinte: “Pague-me quando e da forma que quiser”. Assim se deu. O quadro foi devidamente pago, no período acordado entre eles. Tinha mais ou menos uns 8 anos, mas posso imaginar sua alegria, pois meu avô tinha verdadeiro amor por esta tela, e pude testemunhar isso, durante os anos que se passaram. Como tudo de Iberê, esta tela era belíssima. A tela ganhou discreta moldura em Jacarandá e permaneceu com meu avô por quase vinte e cinco anos.

Iberê Camargo nasceu em 1914 em Restinga Seca, interior do Rio Grande do Sul e passou grande parte de sua vida no Rio de Janeiro. Iberê morreu em 1994 aos 79 anos em Porto Alegre. Deixou um acervo com mais de sete mil obras, entre pinturas, desenhos, guaches e gravuras. Grande parte de sua obra integra a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, projeto premiadíssimo de autoria do arquiteto português Álvaro Siza, um dos arquitetos contemporâneos mais importantes do mundo.

Além da fase dos “Carretéis”, o acervo é composto por trabalhos de outras não menos geniais fases do artista, como as séries “Idiotas”, “Ciclistas” e “Retratos”, todas magistrais. Quem quiser conhecer mais de Iberê, é indicadíssima a visita ao site da Fundação Iberê Camargo, e que diga-se, é muito bem feito. O endereço é este aqui: www.iberecamargo.org.br .
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